{"id":247392,"date":"2025-08-31T08:46:18","date_gmt":"2025-08-31T11:46:18","guid":{"rendered":"https:\/\/portalpopmais.com.br\/?p=247392"},"modified":"2025-08-31T08:46:21","modified_gmt":"2025-08-31T11:46:21","slug":"luis-fernando-verissimo-soube-comentar-o-presente-em-textos-atemporais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portalpopmais.com.br\/en\/luis-fernando-verissimo-soube-comentar-o-presente-em-textos-atemporais\/","title":{"rendered":"Luis Fernando Verissimo soube comentar o presente em textos atemporais"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">O cronista Luis Fernando Verissimo morreu neste s\u00e1bado, 30, em Porto Alegre. Aos 88 anos, ele estava internado em um hospital da capital ga\u00facha desde a segunda semana de agosto e faleceu em decorr\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es de uma pneumonia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, o escritor j\u00e1 havia enfrentado outros problemas de sa\u00fade. Em janeiro de 2021 sofreu um AVC que afetou uma parte cognitiva de seu c\u00e9rebro, dificultando a ordena\u00e7\u00e3o de seus pensamentos, ainda que compreendesse o que se passava ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo do escritor foi velado na tarde do s\u00e1bado no Sal\u00e3o Nobre J\u00falio de Castilhos, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O governador Eduardo Leite decretou tr\u00eas dias de luto oficial no Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1988, Verissimo come\u00e7ou seus trabalhos como colaborador do&nbsp;<strong>Estad\u00e3o<\/strong>. Um ano depois, publicou a primeira cr\u00f4nica semanal no&nbsp;<em>Caderno 2<\/em>, onde escreveu at\u00e9 janeiro de 2021, quando sofreu o AVC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fan\u00e1tico do Internacional, Verissimo sempre foi uma das raras unanimidades positivas do Pa\u00eds. Foi autor de mais de 70 livros, que j\u00e1 venderam milh\u00f5es de exemplares (entre eles, os best sellers&nbsp;<em>O Analista de Bag\u00e9<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>A Com\u00e9dia da Vida Privada<\/em>) e de personagens emblem\u00e1ticos (a Velhinha de Taubat\u00e9, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Filho do escritor Erico Verissimo, ele s\u00f3 come\u00e7ou a escrever aos 30 anos (nasceu em 1936), depois de ter passado por v\u00e1rias escolas de arte e desenho, em cursos que nunca terminou; de ter tentado o com\u00e9rcio &#8220;s\u00f3 para refor\u00e7ar o mau jeito da fam\u00edlia&#8221;; e de ter passado por uma r\u00e1pida carreira jornal\u00edstica, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal&nbsp;<em>Zero Hora<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1973, lan\u00e7ou, pela Editora Jos\u00e9 Olympio, seu primeiro livro,&nbsp;<em>O Popular<\/em>, com o subt\u00edtulo &#8220;Cr\u00f4nicas, ou coisa parecida&#8221;, colet\u00e2nea de textos editados na imprensa, formato que marcaria boa parte de suas publica\u00e7\u00f5es. O primeiro grande sucesso, no entanto, aconteceu com o lan\u00e7amento de seu quinto livro de cr\u00f4nicas,&nbsp;<em>Ed Mort e Outras Hist\u00f3rias<\/em>. S\u00e1tira aos romances policiais, o detetive Ed Mort inspiraria ainda uma tira de quadrinhos desenhados por Miguel Paiva e um filme com Paulo Betti no papel t\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Verissimo se tornaria fen\u00f4meno de vendas com&nbsp;<em>O Analista de Bag\u00e9<\/em>, lan\u00e7ado em 1981, quando a primeira edi\u00e7\u00e3o se esgotou em apenas dois dias. O personagem foi originalmente criado para um programa de humor na TV, capitaneado por J\u00f4 Soares. Com o projeto engavetado, Verissimo levou-o ao livro, tornando-se uma figura peculiar: psicanalista de forma\u00e7\u00e3o freudiana ortodoxa, o analista n\u00e3o esconde, por\u00e9m, seu sotaque e a predile\u00e7\u00e3o por costumes t\u00edpicos da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina. A gra\u00e7a surgia justamente na contradi\u00e7\u00e3o entre a sofistica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e a &#8220;grossura&#8221; caricatural do ga\u00facho da fronteira. O personagem inspirou dois livros de contos, um de quadrinhos (com desenhos de Edgar Vasques) e uma antologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em pouco tempo, ele cruzou fronteiras, tornou-se colaborador de programas de televis\u00e3o &#8211; caso das hist\u00f3rias da&nbsp;<em>Com\u00e9dia da Vida Privada<\/em>, s\u00e9rie de 21 programas (1995-1997), com roteiros de Jorge Furtado e dire\u00e7\u00e3o de Guel Arraes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>VER E SER<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A timidez era uma caracter\u00edstica sempre lembrada: sim, Verissimo sempre buscou ser engra\u00e7ado na escrita e n\u00e3o na fala. Na verdade, nunca se julgou um humorista. &#8220;Acho que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre ser humorista e fazer humor&#8221;, disse. &#8220;O humorista \u00e9 o cara que tem uma vis\u00e3o humor\u00edstica das coisas. O humor \u00e9 sua maneira de ver e de ser.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma filosofia que se revelou \u00fatil durante a dura fase de exce\u00e7\u00e3o Verissimo contou que, durante a ditadura, enviava uma cr\u00f4nica para o jornal deixando sempre uma na gaveta, de reserva. &#8220;E n\u00e3o foram poucas as vezes em que ela saiu de l\u00e1, comentou. &#8220;Os censores pareciam achar o cartum algo infantil; ent\u00e3o, era mais f\u00e1cil fazer passar um cartum pol\u00edtico que um texto pol\u00edtico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Autodeclarado um ga\u00facho desnaturado, por n\u00e3o andar a cavalo, n\u00e3o tomar chimarr\u00e3o e ter nascido e se criado na cidade, Verissimo sentiu o gosto da felicidade plena no dia 4 de abril de 2008, quando sua filha Fernanda lhe deu a primeira neta, Lucinda, nascida em uma data especial: dia do anivers\u00e1rio do Inter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020, Elias Thom\u00e9 Saliba, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo especializado em humor e autor de&nbsp;<em>Ra\u00edzes do Riso<\/em>, descreveu o escritor como o cronista mais popular do Brasil, aquele que &#8220;diz o que o leitor quer falar, mas n\u00e3o consegue&#8221;. &#8220;Verissimo ultrapassa o transit\u00f3rio n\u00e3o apenas porque suas cr\u00f4nicas se transformam em livros, mas porque estabeleceu desde o in\u00edcio um pacto humor\u00edstico com o leitor.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Mais do que qualquer outro, o p\u00fablico que se torna parte do pacto humor\u00edstico \u00e9 aquele que percorre o notici\u00e1rio s\u00e9rio do jornal ou da revista e torna-se capaz de entender as alus\u00f5es, ironias e par\u00f3dias de Verissimo e de seu humor fortemente conectado com os eventos noticiados e, por isso, compreens\u00edvel apenas naquelas situa\u00e7\u00f5es&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a era moderna, muitos dos textos passaram para o meio digital. Em muitos casos, por\u00e9m, escritos que n\u00e3o eram do autor contavam com sua assinatura, tentando ganhar credibilidade. Ele se acostumou ao fato. &#8220;Fico sem gra\u00e7a de dizer que n\u00e3o \u00e9 meu. Em outra oportunidade, uma senhora veio me dizer que n\u00e3o gostava tanto dos meus textos, exceto do Quase, que era maravilhoso. O que posso dizer? Melhor n\u00e3o decepcionar. E quando vou a escolas onde os alunos encenam um texto que, na verdade, n\u00e3o \u00e9 meu?&#8221;, relatou ao&nbsp;<strong>Estad\u00e3o<\/strong>&nbsp;em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RECEITA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, Verissimo se assumia como um &#8220;analfabeto em inform\u00e1tica&#8221;, que se limitava ao uso de e-mails e do site de buscas Google. Para o restante, recorria aos filhos. Em texto publicado no&nbsp;<strong>Estad\u00e3o<\/strong>&nbsp;em 2019 ele dizia: &#8220;Perten\u00e7o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o perdida no tempo&#8221;. E citava a &#8220;farta literatura premonit\u00f3ria&#8221; sobre rob\u00f4s indestrut\u00edveis. &#8220;Que eu saiba, ningu\u00e9m ainda imaginou um roteiro em que os inimigos n\u00e3o sejam grandes rob\u00f4s blindados, mas os pequenos celulares.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2016, o escritor foi perguntado: qual a receita para suas cr\u00f4nicas serem populares e n\u00e3o popularescas? &#8220;N\u00e3o tenho&#8221;, respondeu. Em seguida, atribuiu o m\u00e9rito ao pr\u00f3prio g\u00eanero: &#8220;Acredito que, antes de mais nada, \u00e9 preciso ter clareza na escrita. E, como a cr\u00f4nica normalmente n\u00e3o \u00e9 um texto grande, torna-se acess\u00edvel a qualquer p\u00fablico&#8221;. Ao longo da carreira, Verissimo ficou conhecido n\u00e3o apenas pelos &#8220;textos n\u00e3o t\u00e3o grandes&#8221;, mas tamb\u00e9m por escrever estritamente o necess\u00e1rio, em pouqu\u00edssimas palavras, e ainda assim ter muito a dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REPERCUSS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;\u00c9 um vazio insubstitu\u00edvel. O Verissimo n\u00e3o fala de si, n\u00e3o faz coment\u00e1rio da sua vida privada. Todas as suas cr\u00f4nicas giram em torno de personagens. Verissimo transformou a cr\u00f4nica num g\u00eanero da terceira pessoa. Deixa personagens, n\u00e3o deixa herdeiros, ele \u00e9 inimit\u00e1vel&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fabricio Carpinejar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poeta<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Respeitado, admirado, como outros grandes escritores, por\u00e9m mais de perto, com mais intimidade, gra\u00e7as ao humor delicioso&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rodrigo Lacerda<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escritor e editor<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;\u00c9rico Verissimo levou o Rio Grande do Sul ao mundo. J\u00e1 Luis Fernando trouxe para dentro das fam\u00edlias reflex\u00f5es sobre a classe m\u00e9dia e o choque de gera\u00e7\u00f5es. Suas personagens retratavam de forma brilhante o cotidiano e as rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, passado e presente&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leandro Karnal<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historiador<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ele era um cronista muito diferente dos outros, era um cara meio solto na cr\u00f4nica brasileira, muito singular. Dizia o essencial. Era uma pessoa capaz de ver humor nas coisas mais inesperadas e o humor dele nunca era for\u00e7ado e se exprimia com o m\u00ednimo de meios&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Humberto Werneck<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escritor e cronista<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Era exemplo para todos com a vida de uma simplicidade que nos inspirava. Modesto, humilde, culto e divertido at\u00e9 durante o processo de recupera\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">do AVC&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcelo Rubens Paiva<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escritor<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do jornal&nbsp;<strong>O Estado de S. Paulo.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cronista Luis Fernando Verissimo morreu neste s\u00e1bado, 30, em Porto Alegre. Aos 88 anos, ele estava internado em um hospital da capital ga\u00facha desde a segunda semana de agosto e faleceu em decorr\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es de uma pneumonia. Nos \u00faltimos anos, o escritor j\u00e1 havia enfrentado outros problemas de sa\u00fade. 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